ASCO 2020: evento em formato digital abrange avanços na oncologia

10 de junho de 2020

ASCO 2020 entra para a história com evento em formato digital, grande número de participantes e avanços na oncologia

Os destaques mais uma vez são a medicina personalizada e a imunoterapia

O congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) aconteceu de 29 a 31 de maio e contou com aproximadamente 43 mil especialistas do mundo todo. Em sua primeira versão on-line, devido à pandemia do novo coronavírus, o congresso apresentou as principais novidades no combate e na cura do câncer, com destaque para diagnóstico moleculares e medicina personalizada. Houve, também, abordagem sobre câncer e a COVID-19.

A oncologista clínica Rosane Johnsson, do Instituto de Oncologia do Paraná – IOP, participou deste evento em formato totalmente digital e apresenta as principais novidades da oncologia, como estudos clínicos, novas drogas e formas de tratamento.

“Neste ano, além do ineditismo, por ser um evento on-line, ganharam destaque estratégias contra tipos da doença para os quais não havia avanços recentes, como, por exemplo, as neoplasias trofoblástica gestacional, que ocorrem raramente em certas gestantes, tumores de próstata e pâncreas metastático”, cita a oncologista clínica.

A seguir, um resumo com os principais tópicos do congresso anual.

  1. Exame que aperfeiçoa a indicação de quimioterapia para câncer de mama

O Oncotype X, teste genético que identifica mutações nos próprios tumores, alcançou até 96% de eficácia em determinar se uma mulher com câncer de mama em estágio inicial realmente se beneficiaria da quimioterapia. A novidade pode ajudar a evitar tratamentos desnecessários de quimioterapia e com isso diminuir as reações adversas e mal-estar causados à mulher.

  1. Medicina personalizada na oncologia

Hoje, testes modernos ajudam a determinar qual droga será mais eficaz contra um tipo de tumor em específico, baseado em seu perfil genético e molecular com exames acurados, o que prioriza o uso do fármaco.

  1. Câncer de próstata combatido sem bloquear a testosterona

A novidade veio com um estudo brasileiro, o primeiro no mundo a avaliar o uso isolado de tratamentos que não comprometem a produção da testosterona em homens com câncer de próstata metastático (que já se espalhou pelo corpo).
Quando surge pela primeira vez, um nódulo maligno na glândula é combatido com cirurgia, quimio ou radioterapia. Contudo, caso ele volte, muitas vezes é preciso fazer a castração química, que derruba os níveis de testosterona. Mas é preciso muita atenção com relação ao tratamento porque a falta desse hormônio traz efeitos colaterais importantes, como disfunção sexual, perda de massa muscular e aumento do risco de infarto.

  1. Impactos da COVID-19 no tratamento e pesquisa do câncer

No painel sobre o assunto, o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos exibiu os principais abalos da pandemia na oncologia. Foram eles: atrasos no diagnóstico, queda no rastreamento dos tumores e interrupções no tratamento.

A entidade citou ainda limitações impostas às pesquisas da área, com ensaios clínicos parados e laboratórios fechados. Mesmo antes do congresso da ASCO, oncologistas já vinham calculando o custo da pandemia. Estima-se nesta projeção que mais de 2 milhões de cirurgias oncológicas deixaram de ser feitas no mundo, 40 mil delas no Brasil.

  1. Câncer é fator de risco para mortes por coronavírus

Foram apresentados dois estudos sobre o efeito da doença no prognóstico da COVID-19 com uma letalidade de 13%, consideravelmente mais alta do que na população em geral.

O outro trabalho apresentado envolveu 400 pessoas com tumores torácicos. Os achados foram semelhantes, com a descoberta adicional de que ter uma comorbidade, em especial hipertensão, reduzia ainda mais a chance de sobrevivência à COVID-19.

Mas entre os pacientes com excelente estado geral “não houve mortes entre os que não tinham nenhum comprometimento clínico ou em sua autonomia”, cita o trabalho.

  1. Olaparibe diminui a recidiva de câncer de ovário…

Esse medicamento atua na expressão dos genes BRCA1 e 2, cujas mutações costumam fomentar tumores de ovário reincidentes. Comparado com um placebo em um grupo de cerca de 300 mulheres já submetidas anteriormente à quimioterapia (uma das primeiras opções nesse cenário).

Os cânceres no órgão costumam responder bem à quimioterapia, mas o retorno da doença é frequente. A paciente fica consideravelmente mais tempo sem conviver com um câncer ativo, sem toxicidade. Sinônimo de, no mínimo, maior qualidade de vida.

  1.  … E pode ajudar pacientes com tumores de próstata e pâncreas

Esses males também podem ser financiados por alterações nos genes BRCA. Em outros dois pequenos estudos, o tratamento com o olaparibe promoveu respostas positivas por pelo menos 16 semanas em 70% dos participantes com câncer de próstata e em 31% dos com tumores no pâncreas. Ambos os grupos sofriam com estágios avançados das enfermidades.

Vale a pena ficar atento a um dado, porque esses pacientes geralmente não têm perspectiva de melhora. Eles ficam apenas sob cuidados paliativos.

As pesquisas fazem parte de uma iniciativa maior da ASCO, batizada de TAPUR, que investiga como aplicar o mesmo remédio em mais de um tipo de tumor com base em seu perfil molecular.

  1. Imunoterapia melhora prognóstico do câncer colorretal

Durante a apresentação da ASCO, o composto chamado pembrolizumabe dobrou o tempo de vida sem progressão da doença em pessoas com câncer colorretal metastático (de 8 para 16 meses) quando comparado com a quimioterapia.

A ideia é que o medicamento passe a ser receitado como primeira opção para esse tipo de tumor. Ele pertence à classe dos imunoterápicos, que interferem na própria resposta de defesa do organismo contra o câncer. A imunoterapia é considerada um dos principais avanços na oncologia dos últimos tempos.

  1. Imunoterapia contra um câncer ginecológico raro

Outro fármaco dessa família, o avelumabe, trouxe esperança para um tipo raro de tumor feminino que costuma aparecer durante ou após a gravidez. São as neoplasias trofoblásticas. O levantamento ainda é pequeno, porém traz perspectivas positivas.

  1. Mesmo perto do diagnóstico do câncer de pulmão, parar de fumar aumenta chance de sobrevivência

Já é de conhecimento que largar o cigarro melhora o prognóstico de eventuais tumores pulmonares que aparecerem no futuro. Mas um trabalho apresentado na reunião da ASCO destaca que, mesmo quando essa medida saudável só ocorre pouco tempo antes do surgimento da enfermidade, ainda assim os pacientes colhem benefícios concretos.

A investigação foi feita com mais de 35 mil indivíduos de diversos países. Ex-fumantes que largaram o vício menos de dois anos antes do diagnóstico tiveram um risco 12% menor de morrer quando comparados aos tabagistas. Ter cortado o cigarro há mais de cinco anos reduzia o perigo de morte em 20%. Por isso, vale a dica aos fumantes de longa data: nunca é tarde para parar de fumar!

  1. Após cirurgia para câncer de pulmão, osimertinibe aumenta tempo sem doença

Um tipo específico de câncer de pulmão, o de não pequenas células com mutações no gene EGFR, apresenta alta probabilidade de reincidência mesmo que a quimioterapia e as cirurgias sejam consideradas um sucesso. São tratamentos que miram uma molécula específica da doença, como um alvo preciso (míssil teleguiado). No caso do osimertinibe, o alvo atende pelo nome de tirosina quinase, uma enzima envolvida no crescimento do nódulo maligno. Estudo realizado pela Universidade Yale, dos Estados Unidos, indica que ele também é bem-vindo em fases mais iniciais da doença. Dos 682 portadores desse tipo de câncer que tomaram o medicamento depois da primeira cirurgia, os cientistas notaram redução de 83% no risco de reincidência ou morte.

  1. Avanços no tratamento do câncer de ovário

Novos avanços no tratamento do câncer de ovário transformaram a vida de muitas mulheres. A introdução de terapias direcionadas, como o agente antiangiogênico bevacizumabe (Avastin) e três inibidores da poli-ADP ribose polimerase (PARP), olaparibe (Lynparza), niraparibe (Zejula) e rucaparibe (Rubraca), em um paradigma de tratamento dependente de quimioterapia, permitiu melhoria sem precedentes nos resultados de sobrevivência. Independentemente disso, a alta taxa de recorrência e a resistência ao tratamento são necessidades persistentes e não atendidas no câncer de ovário.

Uma das apresentações altamente esperadas no congresso da ASCO foram os dados do estudo DESKTOP III / ENGOT-ov20, que demonstrou um claro benefício de sobrevivência na cirurgia citorredutora secundária no câncer de ovário recorrente. Enquanto a ressecção secundária aumentou a SG em 8 meses e reduziu o risco de morte em 25%, os pacientes com ressecção secundária completa apresentaram SG prolongada em 15 meses quando comparados aos pacientes que não foram submetidos à cirurgia. O estudo também destaca uma taxa de sucesso de 76% na obtenção da ressecção completa, usando o sistema de pontuação Arbeitsgemeinschaft Gynäkologische Onkologie (AGO), baseado em um bom desempenho e na falta de doença residual após a cirurgia primária.

Embora os resultados do estudo DESKTOP III possam mudar a prática do câncer de ovário recorrente, a apresentação dos resultados finais previamente anunciados do estudo SOLO-2 e os dados de longo prazo deste estudo, a terapia de manutenção inibidor de PARP forneceu quase 13 meses de benefício e 20 meses de atraso da terapia subsequente em relação ao placebo em pacientes que responderam à quimioterapia com platina. Uma taxa média de 42% de sobrevida em cinco anos no braço do medicamento, em comparação com 33% no braço placebo, também é notável e mostra como os resultados do tratamento no câncer de ovário melhoraram drasticamente.

  1. Estudo INVICTUS

Foram apresentados os resultados de segurança do estudo INVICTUS Fase III de QINLOCK (ripretinibe liberado pelo FDA) em adultos com tumor estromal gastrointestinal avançado de quarta linha (GIST) durante a ASCO. A droga foi associada a um aumento no estado de saúde autorreferido pelos pacientes, enquanto o placebo foi associado ao declínio do estado geral e piora dos sintomas do GIST.

  1. Estudo de mama triplo negativo

Foram apresentados os dados em uma sessão oral abstrata sobre o Estudo de fase III, analisando o pembrolizumabe (Keytruda) em combinação com a quimioterapia como tratamento de primeira linha para o câncer de mama metastático triplo negativo (mTNBC). No estudo, pacientes cujos tumores expressaram PD-L1 com um escore positivo combinado (CPS) maior ou igual a 10, pembrolizumabe (Keytruda) com quimioterapia mostrou uma melhora estatisticamente significativa e clinicamente considerável na sobrevida livre de progressão (PFS). A combinação de medicamentos diminuiu o risco de progressão ou morte da doença em 35%, melhorando a PFS para uma mediana de 9,7 meses em comparação com 5,6 meses para pacientes que receberam apenas quimioterapia.

  1. Câncer de pulmão – medicamento aumenta a sobrevida

Em um estudo de fase III CheckMate-227, os dados de acompanhamento de três anos mostraram que o Opdivo (nivolumabe) mais o Yervoy (ipilimumabe) proporcionaram melhorias sustentadas na sobrevida geral, bem como medidas adicionais de eficácia – um tratamento de primeira linha para CPNPC metastático.

O acompanhamento médio foi superior a três anos (43,1 meses) e a combinação mostrou um benefício de sobrevida em comparação à quimioterapia em pacientes que expressaram PD-L1 maior que 1%. As taxas de OS de três anos nessa população foram de 33% para a combinação, em comparação com 22% somente para quimioterapia.

  1. Cânceres de cabeça e pescoço

Pacientes tratados com pembrolizumabe ou pembrolizumabe mais quimioterapia como terapia de primeira linha para carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço recorrente ou metastático (HNSCC) tiveram sobrevida livre de progressão (PFS) mais longa após a próxima linha de terapia do que os pacientes tratados primeiro com o regime EXTREME. O estudo demonstrou sobrevida global superior (OS) para aqueles que receberam monoterapia com pembrolizumabe nas populações com escores positivos combinados de PD-L1 (CPS) iguais ou superiores a 20 e CPS iguais ou superiores a 1, e SO não inferior para aqueles da população total, em comparação com aqueles tratados com EXTREME. A duração da resposta foi substancialmente mais longa e o perfil de segurança foi favorável para aqueles tratados com pembrolizumabe em monoterapia em comparação com EXTREME.

Para o grupo tratado com pembrolizumabe mais quimioterapia, houve (sobrevida global) SG superior para pacientes na população total e nas populações com DP-L1 CPS de 20 ou mais e CPS de 1 ou mais, quando comparadas com EXTREME. Além disso, a duração da resposta foi mais longa para o pembrolizumabe mais a quimioterapia, e os perfis de segurança dessa combinação e do regime EXTREME foram comparáveis.

  1. Novo padrão de atendimento para pacientes com câncer urotelial

O estudo JAVELIN Bladder 100 demonstrou uma melhora significativa na sobrevida global (OS) de pacientes com câncer urotelial avançado com a adição de avelumab aos melhores cuidados de suporte (BSC) no ambiente de manutenção do tratamento. Foi observado que o avelumab também estava associado a um benefício significativo da sobrevida livre de progressão (PFS) e a toxicidade era “gerenciável e consistente com estudos anteriores monoterapia com avelumabe”. O tratamento de manutenção com o inibidor de PD-L1 deve, portanto, ser considerado “um novo padrão de atendimento” para pacientes com câncer urotelial localmente avançado ou metastático cuja doença não progrediu após a terapia de platina de primeira linha.