Para além do câncer

16 de dezembro de 2020

Para além do câncer

Se eu te perguntasse: “Quem é você?”, o que me responderia? Quais seriam os seus critérios? Sua profissão, estrutura familiar, qualidades, defeitos, crenças, sentimentos, vitórias, fracassos, saúde, doença?

Falar sobre si próprio é tão complexo, que por vezes nos reduzimos. Somos uma soma de tudo que vivemos, pessoas que tocamos e permissão que damos para sermos tocados. Por vezes, somos mais nosso trabalho, em outras fases somos mais nossa família. Mas nunca, em momento algum, somos apenas uma coisa só.

Considerando isso, por qual motivo um paciente diagnosticado com câncer deve ser prioritariamente o seu diagnóstico? Por qual motivo sua vida deve ser reduzida a falar sobre doença, efeitos colaterais e prognósticos?

É natural que ao receber um diagnóstico e ao iniciar um tratamento, a temática do câncer acabe por permear boa parte da vida do indivíduo. Muitas vezes a rotina passa a estar em volta de consultas médicas, exames e resultados. Mas, com o passar do tempo, o intuito é que o diagnóstico deixe de estar nos holofotes e passe a estar no local que é de seu pertencimento: uma parte da vida desta pessoa, porém não ela toda.

É preciso que o paciente oncológico vivencie sua vida para além do tratamento, buscando resgatar atividades importantes (por mais simples que sejam), falar de temáticas que lhe motivem, estar na presença de pessoas que lhe façam bem.

Mudanças irão ocorrer, sem dúvida, e muito provavelmente a vida do paciente oncológico não esteja da maneira como ele gostaria. Mas buscar estratégias que auxiliem a viver de uma forma que faça mais sentido é importante.

Enxergar que é possível viver apesar da doença é o grande diferencial. Isso requer autoconhecimento, amplificação de perspectivas, questionamentos, justamente para buscar compreender e entender até onde é possível ir e de que modo a vida pode ser vivida, dentro dessa nova realidade.

Isso não quer dizer que não haverá momentos de tristeza e desânimo. Isso faz parte do ser humano, nossas emoções oscilam e está tudo bem; mas que possamos trabalhar para que esses momentos não sejam predominantes durante todo o seu processo. E, principalmente, que o câncer não seja um resumo de quem essa pessoa é – porque não é a realidade.

Renata Gonçalves é psicóloga clínica no Instituto de Oncologia do Paraná.