Gordura abdominal e excesso de insulina são fatores para o risco de câncer

1 de setembro de 2020

Gordura abdominal e excesso de insulina são fatores preponderantes para o risco de câncer

Estilo de vida sedentário e excesso de calorias ingeridas contribuem para a proliferação tumoral pela produção de radicais livres

A pandemia da Covid-19 trouxe consigo uma maior consciência da necessidade de se adquirir bons hábitos de higiene e sociais, como o uso de álcool em gel, de lavar as mãos com constância, da utilização de máscaras e do distanciamento social, que hoje já fazem parte naturalmente da vida das pessoas. Porém, o medo de contágio pelo novo coronavírus fez com muitos brasileiros deixassem de ir a médicos, hospitais, clínicas, ou seja, exames de rotina, check-ups anuais e consultas saíram de cena. A máscara encobriu os rostos e uma verdade: doenças não esperam a pandemia passar e é preciso, dentro das condições preestabelecidas pelos órgãos de saúde, continuar a rotina de exames e consultas e, principalmente, não abandonar o tratamento.

Juliana Kaminski, endocrinologista e metabologista do Instituto de Oncologia – IOP, conta que devido à necessidade do isolamento social, a pandemia levou boa parte da população ao sedentarismo. “Com isso, há um ganho de peso que pode resultar em obesidade, o que é preocupante, porque a obesidade tem sido apontada em estudos recentes como fator de risco independente para o surgimento de tumores”.

A endocrinologista cita um artigo  sobre Diabetes, Obesidade e Câncer, de fevereiro de 2020, em que Iliana C. Lega e Lorraine L. Lipscombe, pesquisadoras da Universidade Feminina de Toronto, no Canadá, apontam que a obesidade tem implicação no surgimento de 13 tipos de tumores, dentre os quais se destacam o câncer de endométrio (camada interna que reveste o útero), o câncer de mama após a menopausa e o câncer colorretal (intestino): em torno de 60% desses tumores são atribuídos à obesidade.

Este estudo concluiu que o risco de câncer parece estar vinculado à hiperinsulinemia associada à obesidade. O tecido gorduroso, particularmente a gordura visceral (que se deposita entre os órgãos abdominais), constitui um órgão produtor de adipocinas, de citocinas inflamatórias e de estrogênio. O excesso de gordura abdominal leva à hiperinsulinemia (excesso de insulina) e diminuição da adiponectina, uma adipocina que diminui as citocinas inflamatórias.

Os distúrbios metabólicos citados favorecem a oncogênese, como a proliferação celular, a formação de vasos sanguíneos e a perpetuação da célula tumoral. Além disso, o estilo de vida sedentário e o excesso de calorias ingeridas também contribuem para a proliferação tumoral pela produção de radicais livres.

Existe ainda muita controvérsia envolvendo o fato de a hiperglicemia ser um fator independente para o risco de câncer. Na verdade, a hiperinsulinemia tem sido considerada o fator principal de risco para o câncer em diabéticos. Há uma forte evidência da asociação dos níveis elevados de insulina e aumento de risco para câncer de mama, de intestino, pâncreas e de endométrio. Um grande estudo (NHANES) incluiu 9.000 participantes e reportou que a hiperinsulinemia (definida com o insulina> 10 uU/mL) foi associada ao dobro do risco de morte por câncer, e o risco relativo foi observado até mesmo em indivíduos não obesos. A insulina promove a formação tumoral por mecanismos diretos e indiretos e está relacionada ao aumento de fatores de crescimento como o IGF-1 e IGF-2.

Impacto da perda de peso no risco de câncer

Há crescentes evidências de que a perda de peso está associada à redução de risco de câncer. Um estudo prospectivo envolvendo mais de 20.000 mulheres, revelou que a perda de peso intencional, em torno de 9 kg, diminuiu em 14% o risco de tumores relacionados à obesidade, em comparação com as mulheres que não perderam peso. A cirurgia bariátrica tem sido apontada como redutora de risco de câncer. Um grande estudo retrospectivo, que incluiu 22.000 pacientes submetidos a cirurgia, revelou que após 3,5 anos de seguimento, houve 33% de redução de risco de tumores em geral, e redução em 41% de tumores associados à obesidade (mama, intestino e endométrio).

Juliana Kaminski lembra que “a relação entre obesidade, especialmente a gordura abdominal, a hiperinsulinemia e o surgimento de tumores já está estabelecida por vários estudos”. Ela reitera que estudos clínicos recentes têm revelado a importância da perda de peso para a redução do risco de câncer e sustenta que “todo médico endocrinologista deve alertar o paciente obeso e/ou portador de circunferência abdominal aumentada e hiperinsulinemia sobre o risco elevado de tumores”.

Pensando em minimizar esses e outros riscos, o médico endocrinologista e o paciente devem, juntos, estabelecer estratégias para a perda e a manutenção do peso a médio e longo prazo, focando principalmente em mudanças no estilo de vida, que, conforme defende Juliana, parte de uma alimentação saudável e de um programa de atividade física. Além disso, finaliza, “durante o acompanhamento médico, deve ser considerada a necessidade de medicações que auxiliem na perda de peso e na diminuição da hiperinsulinemia”.