Luto e oncologia, como lidar com a simbologia das pequenas mortes

27 de julho de 2020

Luto e oncologia, como lidar com a simbologia das pequenas mortes

Embora a morte esteja presente em nosso cotidiano, para muitas pessoas ter de lidar com ela não é tarefa fácil. Muitas buscam ajuda e apoio para trabalhar suas perdas concretas ou simbólicas, tais como a morte de uma pessoa significativa, relacionamentos amorosos desfeitos, mudanças no status financeiro, frustrações de desejos não realizados, aposentadorias compulsórias, perda de emprego ou até mesmo a perda da própria vitalidade física.

Os pacientes oncológicos podem vivenciar perdas simbólicas que nem sempre são reconhecidas e validadas pela sociedade ou mesmo no próprio ambiente familiar. Essas perdas não reconhecidas podem vir do afastamento do trabalho, das consequências do tratamento oncológico, como alopecia (perda do cabelo, de cílios e sobrancelhas), mutilações por cirurgia, perda da autonomia e independência, mudança nas relações sociais. Vivenciar essas perdas simbólicas pode exigir do indivíduo uma readaptação de vida, uma ressignificação das relações, das atividades e dos papéis em relação à busca do equilíbrio perdido.

“A não validação e o desmerecimento dessas pequenas mortes podem ter um impacto na condição emocional do paciente que deve ser avaliado e acompanhado quando possível por um psicólogo”, cita Renata Gonçalves, psicóloga clínica do Instituto de Oncologia do Paraná – IOP.

De acordo com a psicóloga, ignorar a temática da morte na nossa vida não nos traz benefícios. Falar sobre a nossa finitude e repensá-la pode nos auxiliar a lidarmos de forma mais saudável com esse tema. “Quando o paciente recebe o diagnóstico oncológico, percebemos que ele passa a se questionar sobre os motivos pelo qual ele pode ter adoecido e automaticamente passa a rever a sua própria vida. E diante disso, podemos refletir: será que precisamos passar por uma doença que ameaça a continuidade da nossa vida para nos questionar sobre a forma que estamos vivendo e o que desejamos para o futuro?”, indaga.

Desse modo, a temática da morte para o paciente oncológico acaba fazendo parte do seu processo de tratamento, seja em virtude das mortes simbólicas ou quando ele passa a vivenciar de fato a possibilidade da morte física. E quando esse paciente e familiares se deparam com um prognóstico de vida reservado, é possível perceber em alguns casos o início de um luto antecipatório, que é um processo de luto que se inicia a partir da constatação de uma morte futura. Com o luto antecipatório, tanto paciente quanto familiares podem vivenciar sentimentos de negação, raiva, depressão e até aceitação da atual realidade.

E nesse processo é importante que o paciente possa contar com o suporte de uma equipe multiprofissional para auxiliá-lo na vivência desse período, tendo como foco principal a sua qualidade de vida e bem-estar. O Serviço de Psicologia do IOP realiza atendimento psicológico ao paciente, com escuta e suporte emocional ao longo do processo de tratamento na instituição, conforme solicitação do paciente ou da equipe multiprofissional.