Pesquisa avalia a terapia hormonal na menopausa (TH) em mulheres com hipotireoidismo

29 de março de 2021
A endocrinologista e metabologista Juliana Kaminski, do Instituto de Oncologia do Paraná – IOP, defendeu no início do mês tese de mestrado apoiada em pesquisa sobre Terapia Hormonal na menopausa (TH) em mulheres com hipotireoidismo. A pesquisa foi realizada no Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Paraná – SEMPR, vinculado ao Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná – UFPR, sendo orientada pela professora Dra. Gisah do Amaral, e teve duração de aproximadamente um ano. As voluntárias-pacientes que foram recrutadas se submeteram a exames pré-randomização durante três meses. Após, houve intervenção, com uso da TH, à base de estradiol e progesterona, por seis meses.

 

Critérios de inclusão/exclusão
Para serem incluídas na pesquisa, as voluntárias deveriam ter, além de menopausa e hipotireoidismo, sintomas vasomotores moderados a graves (fogachos e/ou sudorese), principal elemento da pesquisa. A idade entre 40 – 60 anos e sem uso prévio de TH.

Os critérios de exclusão foram: Alterações suspeitas na mamografia: classificação BIRADS 3 ou mais; Alterações na ecografia pélvica transvaginal: endométrio acima de 5 mm de espessura e presença de patologias; Histórico de câncer de mama ou de endométrio; Histórico de infarto agudo do miocárdio (IAM), acidente vascular encefálico (AVE) ou trombose venosa profunda (TVP); Tabagismo e, por último, doenças crônicas graves, a critério médico.

Estudo intervencionista
A pesquisa foi um estudo longitudinal intervencionista. Um grupo recebeu estradiol oral nas primeiras 12 semanas, e o outro grupo recebeu estradiol transdérmico (gel). Na segunda fase do estudo, da 12ª a 24ª semanas, nas participantes com útero, em ambos os grupos, foi adicionada a Progesterona micronizada ao estradiol, para proteção do endométrio (camada interna que reveste o útero).

Avaliamos as participantes nos tempos: basal, 12 semanas e 24 semanas. Foram coletados exames laboratoriais para verificar possíveis variações na função tireoidiana, nos lipídios (colesterol total, HDL e triglicerídeos), nos níveis de glicose e de insulina. Além disso, para a avaliação da qualidade de vida, foi aplicado questionário específico para as mulheres na menopausa”, destaca Dra. Juliana.

Resultados
As mulheres em menopausa portadoras de hipotireoidismo tiveram melhora significativa da sua qualidade de vida durante o uso da TH, nos dois grupos. Em relação à função tireoidiana, em algumas participantes que receberam o estradiol oral, houve necessidade de ajuste da dose de levotiroxina, que é a medicação que controla o hipotireoidismo. Esse efeito já tinha sido previamente descrito na literatura. “A TH com estradiol transdérmico isolado ou em associação à progesterona não afetou significativamente a função tireoidiana das mulheres com hipotireoidismo. Esse estudo é o primeiro a demonstrar a neutralidade da via transdérmica do estradiol para a função tireoidiana das portadoras de hipotireoidismo”, comemora a médica.

A pesquisa confirma a importância do uso da TH em mulheres em menopausa com sintomas vasomotores moderados a graves, desde que respeitadas as suas contraindicações. Especificamente em relação às mulheres com hipotireoidismo, caso seja optado por estradiol via oral, o cuidado está na checagem após 12 semanas da função tireoidiana (dosar o TSH), para verificar se há necessidade de ajuste da dose de levotiroxina.

Desafios durante a pesquisa
Dra. Juliana Kaminski cita que um dos maiores desafios foi selecionar as participantes, devido aos vários critérios de exclusão e também ao preconceito contra a TH, pois ainda existe o temor de que a TH pode causar câncer de mama. Além disso, o pouco fomento voltado à pesquisa clínica no Brasil, sendo necessária a captação de recursos da iniciativa privada, como doação das medicações usadas na pesquisa por parte dos laboratórios fabricantes, parceria com laboratório externo para a realização de alguns exames e também a necessidade de usar recursos do próprio pesquisador.

Nova perspectiva
A próxima etapa agora é divulgar artigo referente à pesquisa na revista científica Menopause, que é a revista oficial da Sociedade Norte-Americana de Menopausa. A publicação deverá ser em breve.

A pesquisa realizada gera hipóteses que valem a pena ser confirmadas por estudos clínicos maiores em mulheres com hipotireoidismo, com a possibilidade de se envolver outros centros de pesquisa no Brasil. “Além disso, muitos estudos podem e devem ser feitos no contexto geral da menopausa, envolvendo as mudanças que ocorrem no peso, na composição corporal e em marcadores para doença cardiovascular nessa fase da vida”, finaliza Dra. Juliana Kaminski.