Síndromes hereditárias podem levar ao câncer

21 de fevereiro de 2017

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou que o número de mortes no Brasil por câncer aumentou 31% desde 2000 e chegou a 223,4 mil pessoas por ano no final de 2015. As estimativas foram publicadas por ocasião do Dia Mundial do Câncer (4 de fevereiro) e visam estimular a descoberta da doença em um estágio ainda inicial e, com isso, reverter essa expansão.

A hereditariedade não é a principal causa para o desenvolvimento do câncer, mas é fundamental identificar quem apresenta um risco para o desenvolvimento da doença – entre 5% e 10% dos casos estão ligados à alteração genética devido a uma mutação no DNA da célula que pode ser transmitida por diversas gerações, o chamado câncer hereditário. É preciso estar atento ao fato de existirem vários membros de uma mesma família que já tiveram a doença e procurar um especialista para a realização de exames (teste genético) e que trace, posteriormente, uma estratégia eficaz e personalizada para o acompanhamento e monitoramento.

 

Para falar sobre Síndromes hereditárias, conversamos com a oncologista clínica do IOP Ana Luiza Wiermann, atualmente realizando Mestrado em Oncologia Molecular no Centro de Estudios Biosanitários (CEB), de Madri, Espanha, que aborda amplamente o assunto.

 

Instituto de Oncologia do Paraná – A taxa do câncer hereditário, que representa entre 5% e 10% dos casos, no Brasil, pode ser considerada alta? 

Dra. Ana Luiza Wiermann – O câncer é uma doença tão comum nos dias de hoje que não chega a ser nenhuma surpresa que muitas famílias tenham um ou alguns membros que já tiveram câncer. Mas em algumas famílias o câncer é causado por um gene anormal que está sendo transmitido de geração em geração. Embora nos refiramos a estas situações como sendo de “câncer hereditário”, o que é hereditário na verdade é o gene anormal, que pode levar ao câncer, sendo que o risco de desenvolver a doença varia de acordo com o tipo de alteração, em que gene ela ocorre e também de acordo com o estilo de vida da pessoa que herdou este gene alterado.

Em termos globais, cerca de 5% a 10% de todos os cânceres resultam de um defeito genético herdado, portanto o número estimado no Brasil não é considerado alto para os padrões observados na população mundial. No entanto, devemos nos lembrar que esse número não leva em consideração exclusivamente pessoas que possam ter um risco maior de acordo com a sua história familiar. Assim, se observarmos exclusivamente indivíduos e famílias com um número grande de casos de câncer, pode ser que esta taxa seja maior do que cremos atualmente.

 

IOP – Ao se identificar um paciente com alteração genética relacionada ao câncer é possível avaliar o risco que essa pessoa terá de desenvolver determinados tumores e também investigar quais familiares podem estar inseridos no grupo de alto risco?

Dra. Ana Luiza Wiermann – Sim, de acordo com a alteração herdada podemos estimar o risco e identificar as pessoas da família que a possuem, e que assim herdaram um risco maior de desenvolver determinados tipos de tumores. Nem todos da família terão obrigatoriamente o risco aumentado, isso acontece porque a mutação genética herdada está presente no ovo ou esperma que formaram a criança. Uma vez que todas as células do corpo vieram desta primeira célula, o gene defeituoso herdado está presente em todas as células do corpo, o que facilita sua identificação por testes.

Mas devemos nos lembrar que recebemos 2 cópias de cada gene – uma da mãe e outra do pai – assim , no caso dos óvulos ou espermatozoides, nem todos terão a alteração, podendo gerar crianças que não receberão o gene defeituoso e não terão seu risco aumentado, mesmo fazendo parte de uma família que possui um gene defeituoso.

 

IOP – Como se dá esta identificação?

Dra. Ana Luiza Wiermann – Uma boa identificação de indivíduos sob risco maior de desenvolver câncer sempre começa pelo conhecimento da história da família. Que tipos de câncer se desenvolveram, em que idade, em que gerações, são informações muito importantes que nos guiam até o passo seguinte que é o teste genético. Mais de 1.000 testes genéticos são utilizados hoje em dia, e muitos mais estão sendo desenvolvidos. Esses testes podem ser usados de muitas maneiras. Os mais frequentemente usados são aqueles onde o oncologista procura verificar se a pessoa que tem ou teve o câncer possui algum defeito em um gene relacionado a este tumor e que possa colocar (ou ter colocado) a pessoa em maior risco de desenvolver aquele tipo de câncer. São os chamados testes genéticos preditivos. Um exemplo é o teste para BRCA1 e BRCA2 (genes relacionados ao câncer de mama) em uma mulher onde a história familiar sugira a possibilidade de um câncer hereditário. Esses testes são normalmente feitos com o sangue ou a saliva, que contêm células com nossos genes.

Outros tipos de testes genéticos são aqueles em que o oncologista, após o diagnóstico, procurará por alterações genéticas diretamente nas células do tumor. Esses testes podem dar informações sobre a possibilidade de uma pessoa desenvolver a doença futuramente (prognóstico) e pode ajudar a identificar o tratamento mais adequado para o seu tipo de tumor, que possa ajudar a melhorar seu prognóstico ou que seja menos tóxico. Esses testes necessitam ser feitos no tumor, seja ele fresco, congelado ou depois de ser colocado em parafina, e os testes vão variar na técnica de acordo com o estado do material.

 

IOP – A OMS lançou campanha neste ano que visa à descoberta do câncer em fase inicial. Que cuidados devemos ter e quais são os sinais de alerta?

Dra. Ana Luiza Wiermann – O cuidado mais importante é conhecer o seu corpo e ir ao médico caso note alguma mudança que não é usual para você. Devemos nos lembrar que qualquer pessoa pode desenvolver câncer, mas é mais comum na medida em que envelhecemos.

Os sintomas abaixo são mais frequentemente relacionados a doenças muito menos graves do que o câncer, mas eles poderiam ser um sinal da doença, então, sempre merecem uma visita ao médico e uma investigação.

1 – Falta de ar ou tosse persistente por mais de 20 dias;

2 – Sangramento vaginal inexplicável;

3 – Azia persistente ou indigestão persistente;

4 – Rouquidão prolongada;

5 – Intestino ou urina muito presos, ou muito soltos, ou com sangue;

6 – Caroços ou inchaços persistentes em qualquer lugar do corpo;

7 – Dificuldade em engolir;

8 – Feridas que não cicatrizam, seja na pele ou nas mucosas, por exemplo a boca;

9 – Nódulos na mama;

10 – Dor inexplicável e persistente em qualquer lugar do corpo.

 

IOP – No caso de câncer de mama, como no da atriz Angelina Jolie, que se tornou referência, havendo predisposição genética, a cirurgia preventiva foi recomendada, mas há outras alternativas como exames com mais frequência e acompanhamento, por exemplo?

Dra. Ana Luiza Wiermann – Sim, e além do acompanhamento com consultas ou exames, existem também outras alternativas, como medicamentos que reduzem o risco de desenvolvimento da doença, mas estes só podem ser indicados depois de uma avaliação minuciosa do caso. A melhor alternativa para cada caso deve ser avaliada em conjunto pelo médico e paciente.

 

IOP – O aconselhamento genético faz parte desta estratégia?

Dra. Ana Luiza Wiermann – O aconselhamento genético para o câncer tem por objetivo ajudar o paciente e sua família a entender o seu risco de câncer e as opções disponíveis. O aconselhamento genético é uma consulta (ou várias) realizada por um especialista, onde se explica não somente os testes genéticos disponíveis, mas também aborda o rastreio do câncer, as opções para prevenção e tratamento, além de resolver dúvidas e prestar apoio ao paciente que passa por um momento delicado.

 

IOP – O chamado Heredograma (uma espécie de árvore genealógica que mostra a distribuição de casos de câncer na família, incluindo grau de parentesco, gênero e idade em que cada um recebeu o diagnóstico de câncer) é determinante para se identificar a síndrome hereditária a ser investigada?

Dra. Ana Luiza Wiermann – O Heredograma é uma ferramenta utilizada pelo médico para conhecer em detalhes a história da família do paciente ou da pessoa que consulta com ele, e, naturalmente, a história familiar tem grande importância na determinação do risco de se desenvolver um tumor.

 

IOP – A Síndrome de Li-Fraumeni vem sendo muito estudada aqui no Paraná devido ao aumento do número de casos. Do que se trata esta síndrome e quais os principais tumores que ela desenvolve?

Dra. Ana Luiza Wiermann – A Síndrome de Li-Fraumeni é uma doença rara que se caracteriza pela ocorrência de vários tumores na mesma pessoa. Ela está ligada a defeitos do gene p53, que normalmente ajuda no controle das células do nosso corpo. Esses defeitos, chamados tecnicamente de mutações, podem ser herdados ou podem ser desenvolvidos ao longo da vida.

Nesta condição, o risco de desenvolvimento de tumores malignos antes dos 50 anos é 25 vezes superior ao da população geral. Os tipos de tumores que esses pacientes podem desenvolver são variáveis, sendo os mais comuns sarcomas, câncer da mama, leucemias e tumores cerebrais. Comparados com tumores esporádicos, os tumores em indivíduos com esta síndrome surgem numa idade mais precoce e podem desenvolver-se múltiplos tumores primários.

No Brasil (e no Paraná), é mais frequente uma mutação específica (a mutação germinativa TP53 p.R337H), e tem íntima relação com a elevada frequência de carcinomas das glândulas adrenais em crianças, entre outros.

 

IOP – Os genes BRCA1 e BRCA 2 estão ligados à Síndrome de Câncer de Mama e Ovário Hereditário, como se dá essa mutação e qual o risco de se desenvolver a doença?

Dra. Ana Luiza Wiermann – A sigla dos genes BRCA se refere à abreviatura de câncer de mama em inglês (BR para breast e CA para cancer). Os genes BRCA1 e BRCA2 foram os dois primeiros genes descobertos por serem responsáveis pelo câncer de mama e também de ovário hereditários. Todas as pessoas nascem com duas cópias do gene BRCA1 e BRCA2, uma cópia de cada gene de sua mãe e uma cópia de cada gene de seu pai. Esses genes são encontrados em todas as células do corpo, mas são mais importantes nas células da mama e do ovário. Os genes funcionam no nosso corpo como códigos para a fabricação de proteínas, e o gene BRCA é o “código” para fazer uma proteína BRCA. Essa proteína tem a função de verificar se a divisão das células no nosso corpo está saindo corretamente e se nosso material genético (nosso DNA) está sendo copiado corretamente em cada célula.

Se ocorre uma mutação e o gene não funciona adequadamente, esta função se perde. Os tumores são gerados por células que contêm erros no material genético, e como os portadores da mutação têm esta função defeituosa, eles têm maior chance de desenvolver tumores. O risco varia muito de acordo com o tipo de mutação que apresenta cada paciente e por esse motivo somente um profissional especializado e uma avaliação individualizada podem estimar o risco de uma pessoa de desenvolver um tumor.

 

IOP – O Estado do Paraná tem um alto índice de câncer de pele. Podemos dizer que o Melanoma Familial (relacionado aos genes CDKN2A e CDK4) pode ser transmitido de geração a geração?

Dra. Ana Luiza Wiermann – Sim, os genes CDKN2A e CDK4 podem ser transmitidos dos pais para os seus filhos. A Síndrome do Melanoma Familiar é caracterizada pela presença de múltiplas manchas na pele chamadas tecnicamente de nevos (em geral mais do que 50) e pela história familiar de melanoma.

Estima-se que somente 5% a 12% dos casos de melanoma são hereditários e que a grande incidência de câncer de pele do tipo melanoma e não melanoma no Estado do Paraná esteja relacionada aos altos índices de exposição solar.