Vacina da COVID-19 para quem tem câncer: tire suas dúvidas

10 de março de 2021
A imunização contra a COVID-19 teve seu início no Brasil em janeiro 2021 para profissionais da saúde e grupos prioritários. Até o momento, são duas as opções de vacina: a CoronaVac®, fabricada pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório Sinovac, e a Oxford-AstraZeneca, produzida pela Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz.

Pacientes oncológicos não se enquadram dentro dos critérios de vacinação preestabelecidos pela Agência de Vigilância Sanitária – a Anvisa, porém, muitos se encaixam na faixa etária prevista entre os grupos prioritários. Mas, afinal, pacientes com câncer podem ser vacinados? Há algum risco? Deve-se parar o tratamento ao se aguardar a segunda dose da vacina? A oncologista clínica Rosane do Rocio Johnsson, do Instituto de Oncologia do Paraná – IOP, responde tudo o que o paciente oncológico precisa saber para se sentir seguro quando for o momento de ser vacinado.

Mas, lembre-se: mesmo imunizada, a pessoa não deve negligenciar os cuidados priorizados pelas autoridades sanitárias, como usar máscara, lavar as mãos, utilizar álcool em gel, manter o distanciamento e evitar aglomerações.

1 – Pacientes em tratamento com quimioterapia, imunoterapia, radioterapia, dentre outros tipos, podem ser vacinados contra o coronavírus? Qual a recomendação?
Dra. Rosane do Rocio Johnsson: Os pacientes, sim, podem receber a vacina. Verifique as recomendações do prazo de tempo para receber a vacina antes de agendar a aplicação, devido ao tratamento. As vacinas são seguras e provavelmente eficazes para pacientes em tratamento oncológico. A recomendação é fazer uma programação coordenada com o seu esquema de tratamento, por isso, converse com seu médico do IOP com quem você faz o tratamento para receber as orientações em caso de dúvidas.

2 – E se tiver que esperar pela segunda dose da vacina, continuo o tratamento?
RRJ – O tratamento deve sim ser continuado. No IOP, temos nos mantido em um padrão de assepsia ainda mais elevado desde o primeiro dia da pandemia. Em todas as etapas ao longo do caminho, atendemos ou excedemos as diretrizes do Ministério da Saúde, do Estado do Paraná e da cidade de Curitiba. Tomamos todas as precauções necessárias para garantir que nossos pacientes e funcionários se sintam seguros quando estão em nossas clínicas e unidades que pertencem ao Grupo IOP.

3 – A vacina pode aumentar as complicações do tratamento com imunoterapia contra o câncer?
RRJ – Após análise cuidadosa de todas as evidências científicas disponíveis, nossos especialistas clínicos determinaram que as vacinas da COVID-19 autorizadas para uso emergencial pelo Ministério da Saúde do Brasil são seguras e recomendadas para pacientes com câncer.

4 – E quanto aos voluntários que participam de ensaios clínicos para pesquisas oncológicas?
RRJ – Como muitas pessoas, também os pacientes voluntários em ensaios clínicos tiveram que reduzir suas atividades devido à nova pandemia do coronavírus – COVID-19. O distanciamento social e as ordens para ficar em casa forçaram a evitar reuniões familiares e a frequentar mais reuniões virtuais, até os passeios locais foram e ainda são limitados. Mas pacientes que estão em tratamento ativo para o câncer continuam sim a fazer e a receber as medicações e todo o suporte quando se é voluntário de um ensaio clínico no IOP. O monitoramento contínuo dos ensaios clínicos é importante, independentemente da pandemia de COVID-19.

5 – Qual a conduta a ser adotada pelas pacientes portadoras de câncer de mama, em função do linfonodo?
RRJ – Caso você seja uma paciente que atualmente tem ou já teve câncer de mama, peça para receber a vacina no braço oposto ao local do câncer de mama. Isso ajudará a melhorar sua resposta imunológica e a diminuir o aumento dos linfonodos. Vale dizer que linfonodos aumentados podem afetar falsamente o rastreamento do câncer e os resultados de diagnóstico por imagem até 6 semanas após a vacinação.

6 – E quanto aos pacientes que fizeram cirurgia recentemente?
RRJ – Os pacientes que passaram por cirurgia recentemente devem esperar duas semanas após a data da cirurgia para receber a vacina.

7 – Tomei a vacina da COVID-19 e agora preciso fazer um exame de diagnóstico por imagem, tem algum problema?
RRJ – Caso você precise realizar um exame de diagnóstico por imagem que inclua seus nódulos linfáticos axilares, converse com seu médico no IOP para ver se é clinicamente apropriado adiar o exame por 6 a 10 semanas após a vacinação com COVID-19. A resposta imunológica do seu corpo à vacina pode causar inflamação temporária dos nódulos linfáticos axilares e interferir no seu exame de imagem.

8 – Estou amamentando, posso tomar a vacina da COVID-19?
Os dados de segurança ainda não estão disponíveis sobre os riscos associados à vacina durante a gravidez ou os efeitos das vacinas COVID-19 em bebês que estão sendo amamentados ou na produção/excreção de leite.
Em mulheres que amamentam, as vacinas de mRNA não são consideradas um risco para o bebê amamentado.
Sabe-se, atualmente, que as mulheres grávidas correm maior risco de doenças graves caso contraiam o vírus COVID-19, e seus bebês podem correr risco de resultados adversos, como parto prematuro.
Por essas razões, as mulheres grávidas devem consultar seus médicos para avaliar seu risco pessoal de contrair COVID-19 ao considerar a possibilidade de vacinação. A decisão é sua e deve ser baseada nas informações de segurança disponíveis e na consideração cuidadosa dos riscos e benefícios da vacinação.

9 – E se estiver com febre?
RRJ – Em geral, como acontece com todas as vacinas, diante de doenças agudas febris moderadas ou graves, recomenda-se o adiamento da vacinação até a resolução do quadro, com o intuito de não se atribuir à vacina as manifestações da doença.

10 – Após tomar a vacina contra o coronavírus, por quanto tempo ficarei imunizado?
RRJ – Obviamente, adoraríamos que a vacina desse a imunidade vitalícia contra COVID-19, mas isso ainda está para ser analisado e respondido daqui a algum tempo, pois muitas pessoas nos ensaios clínicos da vacina ainda estão no período de acompanhamento. Acreditamos em pelo menos três meses, senão seis meses ou mais. Mais dados estão chegando e nos guiarão para o planejamento futuro. Numa estimativa, poderíamos dizer que provavelmente vai ficar entre a gripe e a caxumba, em termos de longevidade de proteção. Provavelmente estará mais perto da gripe, porque os vírus respiratórios não tendem a causar imunidade a longo prazo.

11 – Qual a diferença entre elas, no momento temos a da AstraZeneca e da CoronaVac®.
RRJ – A vacina com o vírus inativado: têm como base um vírus que passou por um tratamento químico que o torna incapaz de se replicar, que é a vacina CoronaVac®, cuja eficácia é de 50,38%. Isso significa que, de cada 100 pessoas vacinadas que tiverem contato com o vírus, 50 delas não manifestarão a doença devido à imunidade dada pela vacina. Dessas 100 pessoas vacinadas, nenhuma delas desenvolveu a forma grave ou moderada da doença, isto é, nenhuma delas precisou de hospitalização. Este efeito é um dos mais importantes, prevenir a forma grave da doença, que traz sequelas e até mesmo a morte. É consenso, na pesquisa clínica internacional, que vacinas com mais de 50% de eficácia nos testes sejam utilizadas e tragam benefícios à população, desde que a maior parte das pessoas sejam imunizadas. Existem outros dados da CoronaVac® a serem considerados: para quem ficou doente, a vacina reduziu em 78% a chance de ter uma doença leve que precise de assistência médica.

Vacinas com vetor viral não replicante: estratégia ainda inédita em seres humanos, utiliza um adenovírus inofensivo como meio de transporte para uma proteína do Sars-CoV-2, a espícula S, que o coronavírus usa para invadir as células humanas. O contato com o adenovírus permite uma resposta do organismo contra essa proteína, que é a vacina da Oxford-AstraZeneca. Foi administrada de duas formas diferentes: na primeira delas, os voluntários receberam metade de uma dose e, um mês depois, uma dose completa. Nesse grupo de voluntários, a eficácia foi de 90%. Já no segundo grupo, que recebeu duas doses completas da vacina, a eficácia foi reduzida a 62%. Esses dois resultados permitiram obter eficácia média de 70%.

12 – As vacinas são seguras?
RRJ – Sim, são seguras. A vacina é capaz de interromper a circulação do vírus de forma controlada e sustentada, mas isso só é possível se uma parcela significativa da população for vacinada. Com a vacinação em massa da população, torna-se impossível que o Sars-CoV-2 encontre hospedeiros e, com isso, consegue-se reduzir drasticamente o número de pessoas infectadas.

13 – Mesmo depois de ser imunizado, posso ser infectado?
RRJ – As vacinas têm a capacidade de reduzir a chance de a pessoa se infectar. Existem diferentes tipos de proteção, como prevenir infecção, impedir a manifestação dos sintomas ou prevenir contra um quadro mais grave. Até o momento, as diversas vacinas produzidas e que já estão sendo utilizadas contra a COVID-19 foram eficazes em diminuir a proporção de casos sintomáticos da doença em até 95%. Entretanto, um dos principais objetivos das vacinas é prevenir os casos mais severos da doença, reduzindo as internações hospitalares, necessidade de oxigenioterapia, admissões em unidades de terapia intensiva, sequelas da doença e óbitos causados nos pacientes mais vulneráveis. No entanto, ainda não se sabe se elas protegem contra a infecção viral em pacientes assintomáticos.

Estas são vacinas altamente eficazes. Para efeitos de comparação, a vacina contra a gripe H1N1 que recebemos tem eficácia entre 50% a 70% e ainda tem um grande impacto a cada ano. Levará algum tempo, mas a vacinação generalizada contribuirá muito para a redução da propagação da COVID-19.