Estudo do Tata Memorial Centre: um exemplo a ser seguido em nosso país?

9 de junho de 2021

Estudo do Tata Memorial Centre: um exemplo a ser seguido em nosso país?

Rastreamento do câncer de mama com exame clínico foi realizado na Índia

A incidência de câncer de mama está aumentando em todos os países do mundo, especialmente em países de baixa e média renda e tem se tornado uma das principais causas de morte em mulheres. Já ultrapassou o câncer de pulmão como o de maior incidência em mulheres, com 2,3 milhões de casos em 2020 e 685 mil óbitos.

Recentemente um estudo indiano publicado por Mittra et al no BMJ teve grande impacto. O exame clínico das mamas realizado por profissionais de saúde a cada 2 anos foi associado a uma queda de mortalidade de 30% em mulheres com mais de 50 anos quando comparado a um grupo controle. O estudo mostrou ainda uma redução significativa do estadiamento das mulheres com câncer de mama ao diagnóstico e uma redução de 15% na mortalidade (p NS) no grupo geral das mulheres que foram examinadas regularmente.

“Dr. Mittra é um mastologista do Tata Memorial Centre (TMC), um dos maiores centros oncológicos da Ásia, e uma grande inspiração para nós”, cita a oncologista clínica Rosane do Rocio Johnsson, do Instituto de Oncologia do Paraná – IOP.

Com a realização de 4 visitas com 2 anos de intervalo e 8 anos posteriores de seguimento, profissionais de saúde treinados ofereciam educação de saúde para as voluntárias, e além do exame físico das mamas realizavam o exame visual do colo do útero com ácido acético a 4%. Esta publicação se refere aos dados de câncer de mama.

Como resultado obtiveram os seguintes dados: o câncer de mama foi detectado em média aos 55 anos (contra 56 do grupo controle). Foram encontrados 37% de casos (220) de estádio III e IV contra 47% no grupo controle (271; p=0,001). No grupo geral (35-64 anos) a mortalidade foi de 20,8/100 mil contra 24,62 no braço controle (RR: 0,85 p=0,07 IC 0,71-1,01), 15% menor, mas estatisticamente não significativa. Já entre mulheres 50+ a mortalidade foi de 24,62 vs 34,68, ou seja 30% menor (RR: 0,71 p=0,02 IC: 0,54-0,94).

Vidas salvas
Segundo Dra. Rosane, “O que mais salta aos olhos no estudo do Dr. Mitra é que um simples exame físico periódico realizado por profissionais de saúde bem treinados conseguiu reduzir a mortalidade em até 30%, e isso é um grande feito. Vale salientar também que podemos aproveitar o resultado do estudo e aplicar aqui em nosso país, com medidas que visem melhorar as políticas públicas de rastreamento (incentivar a mamografia) para aumentar a capacidade de diagnosticar precocemente o câncer de mama e com isso salvar vidas”, destaca a oncologista clínica.

Olho no olho
O Instituto Nacional de Câncer – INCA aponta que para cada ano do triênio 2020/2022 sejam diagnosticados no Brasil 66.280 novos casos de câncer de mama, com um risco estimado de 61,61 casos a cada 100 mil mulheres. O câncer de mama é o mais comum na população feminina, podendo acometer diferentes faixas etárias, porém, o mais comum é a partir dos 40 anos, pode ser ou não hereditário.

“O Brasil é um país de dimensões continentais, dividido em regiões (Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste), com suas idiossincrasias e disparidades socioeconômicas. O mesmo vale para o sistema de saúde de estados e municípios. Em regiões consideradas mais ricas, vemos grandes centros de oncologia, profissionais altamente especializados, com tecnologia de ponta para o tratamento do câncer de mama, programas de saúde pública com políticas de rastreamento bem definidas, mamógrafos aferidos que geram resultado de imagem com qualidade, campanhas bem disseminadas, como o Outubro Rosa, e tudo o necessário para informar as mulheres. Porém, esta realidade não é válida para todos os rincões do país, onde mulheres precisam pegar uma canoa, por exemplo, e navegar por horas para fazer uma consulta com um médico e depois agendar seus exames. Muitas vezes, ela acaba desistindo do tratamento.

Mesmo diante de adversidades é possível com políticas públicas mais assertivas driblar os infortúnios e realizar programas básicos de rastreamento. Mas é preciso, também, contar com a adesão das mulheres brasileiras. Ainda vemos casos de mulheres que fizeram a mamografia mas que não foram buscar o resultado, ou seja, sequer sabem se estão ou não com câncer.

Então, a recomendação é mais tipo olho no olho, as instituições precisam fazer a sua parte, mas a população também. A pandemia da COVID-19 prejudicou muito a prevenção e o acesso ao tratamento. Somente ano passado, estima-se que 75% das mulheres deixaram de fazer seus exames de rotina, por medo ou por pertencerem a grupos de risco. As instituições de saúde estão tomando todos os cuidados possível no que diz respeito à prevenção, com uso de álcool em gel, sanitização de ambientes, controle de acesso das pessoas com uso de máscara, dentre outros. É preciso união de esforços de todos para podermos diminuir a incidência desse tipo de câncer.”