Depressão em pacientes oncológicos em tempos de coronavírus

21 de março de 2020

Depressão e coronavírus |

Atendimentos aos pacientes do IOP estão sendo realizados por contato telefônico e em alguns casos por videochamadas

O mundo está passando por uma transformação em função da pandemia declarada pela Organização Mundial da Saúde e o responsável por toda essa movimentação é o coronavírus, causador da COVID 19. Cuidados com a higiene pessoal, da casa e dos alimentos consumidos, do ambiente de trabalho, ventilação natural e diminuição do uso de ar-condicionado, opção por trabalhar em casa de modo remoto e para uma fatia da população ficar em casa devido à idade e comorbidades são alternativas de prevenção. Medidas de restrição de contato social (isolamento) são indicadas para pessoas com mais de 60 anos, especialmente portadoras de doenças como diabetes, hipertensão arterial, doenças do coração, pulmão e rins, doenças neurológicas, em tratamento para câncer, portadores de imunossupressão, entre outras doenças.

Independentemente da idade, para muitos o isolamento social pode vir a causar uma certa angústia, tristeza e até mesmo se agravar para um caso de depressão. A depressão é uma doença grave que pode ter um grande impacto na qualidade de vida de um indivíduo. Em pacientes diagnosticados com câncer, ela pode afetar o sucesso do tratamento. As estatísticas apontam que de 15-25% das pessoas diagnosticadas com câncer podem vir a sofrer com a depressão.

A psicóloga clínica Renata Gonçalves, do Instituto de Oncologia do Paraná – IOP, explica que “A depressão maior pode interferir na condução do tratamento. Isso geralmente acontece em cerca de 1 em cada 4 pessoas com câncer, mas pode ser gerenciado. Pessoas que já tiveram depressão antes têm maior probabilidade de ter depressão após o diagnóstico de câncer. Importante conversar com o profissional de psicologia que poderá fazer uma intervenção e indicar um profissional habilitado para que seja feito um tratamento adequado”.

Percebendo os sinais… é depressão?

Para a psicóloga, a família e amigos que percebem sinais e sintomas de depressão podem incentivar a pessoa a obter ajuda. Às vezes, sintomas de ansiedade ou angústia, principalmente em função do isolamento causado pela pandemia ou até mesmo pela tensão que o assunto gera, podem acompanhar a depressão. “Há alguns sinais característicos e sintomas que podem apontar para um início de depressão em que a pessoa precisa de ajuda profissional, como humor triste, sem esperança ou “vazio” contínuo quase todos os dias durante a maior parte do dia; perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram prazerosas; perda ou ganho de peso, alterações no sono, cansaço extremo ou pouca energia, inquietude, problemas para focar, lembrar ou tomar decisões, pensamentos frequentes sobre morte ou suicídio ou tentativas de suicídio, por exemplo”.

 Vale salientar que o próprio tratamento oncológico pode vir a causar alguns problemas físicos, como cansaço, falta de apetite e alterações no sono e é preciso estar atento e em caso de dúvidas recorrer à equipe multiprofissional.

Como cuidar da depressão do paciente

O paciente com quadro de depressão deve ser acompanhado por um psicólogo e em casos mais graves também por um médico psiquiatra. Além disso, atividades físicas, meditação, yoga, arteterapia, entre outros, também são meios que auxiliam no tratamento da depressão.


E quanto ao paciente, o que ele pode fazer?

Inicialmente, o mais importante é que haja uma compreensão por parte do paciente de que há a necessidade de auxílio profissional. O engajamento com o tratamento é a principal ferramenta para tratar a depressão e minimizar gradativamente os sintomas. Também é importante a busca de atividades que gerem momentos de prazer, mesmo que por poucos instantes.

Além disso, é importante que o paciente tenha companhias e procure manter o ambiente arejado, com a entrada de luz solar e ar fresco. Manter-se em um quarto escuro, completamente sozinho, tende apenas a piorar o quadro.

E quanto à família?

É de extrema importância que a família busque primeiramente compreender do que se trata uma depressão e as diferentes formas de manifestação. Nesse momento, é fundamental que o paciente tenha ao seu redor pessoas que o acolham e compreendam que ele precisa de auxílio profissional.

Um paciente que está com um quadro depressivo, precisa primeiramente ser compreendido, acolhido e escutado. Desse modo, uma rede de apoio saudável, compreensiva e que esteja engajada no tratamento do paciente é a melhor ferramenta para auxiliá-lo nesse processo.

É comum familiares não saberem o que falar e como reagir às angústias trazidas pelo paciente e nesse momento o mais importante é a disponibilidade da escuta.

Como controlar a ansiedade e a falta de convívio pelo isolamento?

Pode-se usar algumas estratégias para a diminuição da ansiedade e a administração do isolamento social:

1 – Evitar informações em demasia. Nesse momento, estamos recebendo uma quantidade exacerbada de informações, que acabam por nos deixar mais ansiosos e amedrontados, não nos trazendo benefícios. Desse modo, precisamos nos manter atentos às novas informações, porém de forma controlada.

2 – Buscar por atividades que possam ser desenvolvidas dentro de casa, como, por exemplo, exercícios físicos que não exijam aparelhos, nem grandes espaços (porém de forma segura e cautelosa), leituras de livros e consumo de programas televisivos ou nas redes sociais que permitam distração e momentos de leveza.

3 – Técnicas de respiração. Quando nos encontramos ansiosos, a nossa respiração é a primeira a ser afetada. Devemos sempre voltar nossa atenção para ela, para que possamos voltar a respirar de forma adequada. Um bom exemplo é a técnica de respiração chamada quadrada, que é inspirar lentamente contando até quatro, depois segurar o ar nos pulmões por mais quatro. Expirar lentamente por quatro segundos e após esvaziar os pulmões mantendo por mais quatro.

4 – Utilizar a tecnologia para auxílio no contato com pessoas queridas, para minimizar a saudade e manter vínculos estreitos com aqueles que nos são importantes.

Tudo vai passar, como manter a calma em momentos delicados em função do próprio tratamento e em função de uma pandemia?

“Estamos vivendo um momento de tensão mundial, mas sabemos que pessoas do grupo de risco acabam por ter uma intensificação dessa tensão. Diante disso, é importante que nos mantenhamos conectados uns aos outros, de algum modo. A interação, a troca e o afeto (mesmo que a distância) são imprescindíveis para a manutenção da nossa saúde mental. E como já mencionado anteriormente, buscar por atividades que nos gerem prazer e distração”, cita a psicóloga.

Os atendimentos aos pacientes do IOP estão sendo realizados por contato telefônico e em alguns casos por videochamadas. “Podemos utilizar a tecnologia para continuar cuidando da saúde emocional de nossos pacientes.”

A palavra de ordem é prevenir

“Busque cumprir dentro do possível todas as recomendações para garantir sua segurança. Lembre-se que informações em grande quantidade acabam por aumentar o nível de estresse e ansiedade, desse modo controle a quantidade de notícias que chegam até você. Manter-se vinculado a atividades e pessoas que lhe geram bem-estar, dentro do que for permitido, é uma ótima ideia. E o mais importante: em momentos de ansiedade e angústia, busque por pessoas que possam lhe acolher e auxiliar em um momento de crise. Nós, psicólogos, estamos à disposição para auxiliar no manejo de momentos de adversidade como o que estamos vivendo.”

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