Setembro Amarelo: o suicídio e o câncer

23 de setembro de 2019

Setembro Amarelo: o suicídio e o câncer

Uma morte por suicídio a cada 40 segundos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Ao finalizar a leitura de dois parágrafos desta matéria, uma pessoa terá tirado a própria vida. Especialistas apontam que o suicídio é multifatorial, ou seja, não existe uma única causa, ao contrário, diversos fatores podem levar uma pessoa a cometer tal ato. Existem alguns sinais de alerta, chamados fatores de risco, e o sofrimento é o grande vilão. Afinal, ninguém quer sofrer e o próprio sofrimento traz na bagagem o medo, a raiva, a tristeza…

Os números da OMS apontam que em todo o mundo, 800 mil pessoas comentem suicídio todo ano. Ele é considerado a segunda maior causa de mortes de jovens entre 15 a 19 anos no mundo, no Brasil, é a quarta causa de morte. A pergunta que fica no cerne da questão e que paira no imaginário como um todo é: “por quê?” Afinal, o que leva uma pessoa a querer se matar?

O psicólogo Edwin S. Shneidman, que estudou por muitos anos o comportamento suicida, cita que a melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim, as emoções. As perguntas a se fazer são: ‘onde dói?’ e ‘como  posso  ajudá-lo?’. Shneidman sintetizou anos de estudo com a seguinte frase: “O suicídio é um ato definitivo para um problema temporário”.

Suicídio e câncer

Em 2017, pesquisadores da Universidade College London (UCL), em sua revista Psycho Oncology, publicaram uma revisão de estudo que concluiu que o medo do câncer emana da visão comumente propagada de que ele é um “inimigo cruel, imprescindível e indestrutível”. Outro estudo, de pesquisadores da UCL e do King´s College London, publicado em 2014 na revista BMC Cancer, com dados do Reino Unido, aponta que o câncer é o problema de saúde mais temido. E, ainda, segundo apontado em pesquisa realizada por algumas instituições inglesas, há um grande risco de o indivíduo se suicidar nos seis meses que se sucedem ao diagnóstico inicial, sendo esta uma fase crucial de acolhimento.

No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são 580 mil casos de câncer todo ano, com aproximadamente 220 mil mortes. A estatística aumenta ano após ano, mesmo com campanhas mensais de prevenção dos mais variados tipos de câncer. “Receber um diagnóstico de câncer assusta. A maioria das pessoas precisa de um tempo para assimilar a notícia. Naquele instante, é possível que passe um filme na cabeça e todo tipo de sentimento pode aparecer. Emocionalmente pode ser muito difícil e é comum, também, aparecerem sentimentos como raiva, medo, choque e descrença. Absorver o impacto da notícia e o que se deverá fazer como forma de tratamento – cirurgia, quimioterapia e radioterapia, por exemplo – impacta de muitas formas. As reações são muito individuais. Há os que encaram como uma guerra a ser vencida, enquanto outros já se imaginam perdendo a guerra. Por isso, o papel da psicologia oncológica é fundamental”, cita a psicóloga Daniele Rabelo, do Instituto de Oncologia do Paraná.

Um estudo de 2017 da Universidade Cornell (EUA) aponta que as taxas de suicídio são 60% maiores entre pessoas que recebem um diagnóstico de câncer. Esse número bate na casa dos 300% se o câncer foi diagnosticado no pulmão. Para chegar a essa conclusão, cientistas analisaram um banco de dados com informações de mais de 3 milhões de pacientes ao longo de quatro décadas. O que causa espécie com as informações do estudo é que 50% dos indivíduos com câncer de pulmão que se suicidaram poderiam melhorar com tratamentos.

Para o cancerologista e atual vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Luiz Antonio Negrão Dias, independente do tipo de doença, a sociedade precisa se mobilizar e falar livremente sobre o assunto. “Agora, com uma divulgação maior sobre o suicídio, a população poderá ficar mais atenta aos fatores de risco, saberá melhor como lidar com esta verdadeira epidemia que está ocorrendo. A informação fará a sua parte. Assim como campanhas como o Setembro Amarelo, que trazem lume à escuridão que norteia assunto tão complexo como este.”

Espiritualidade a favor da vida

Espiritualidade traz como significado estar em conexão com o espírito, cuidar das coisas do espírito, podendo ser associada a diversas práticas que não necessariamente estão ligadas a alguma religião. É uma questão essencial para a maioria das pessoas: cerca de 80% da população mundial está ligada a alguma religião ou acredita em um poder superior. No Brasil, 86,7% dos brasileiros se denominam cristãos.

São Roberto Belarmino (1542-1621), jesuíta, considerado um doutor da Igreja, após ter por muitos anos realizado exercícios espirituais, nos aconselha a lembrar sempre o nosso fim, aquilo para o que fomos criados, que é a glória de Deus, ou seja, servir a algum propósito, mesmo que seja o do eu divino. Trabalho publicado pela Mayo Clinic conclui que o envolvimento religioso e a espiritualidade dão uma maior resiliência (que é capacidade de lidar com os problemas), melhoram a qualidade de vida (mesmo durante doenças terminais), asseguram maior longevidade e menores índices de depressão, ansiedade e suicídio.

“A espiritualidade se relaciona com o que a pessoa considera sagrado, divino, sublime e não precisa estar ligada à religião. Tem relação com qualidade de vida e o que cada um considera positivo para si mesmo. Dessa forma, muitas vezes essa área pode ser reforçada e melhorada em pacientes que apresentam ideação e/ou tentativa de suicídio, para auxiliar o indivíduo a encontrar sentido em seu sofrimento, além de sentir que esse não é mais insustentável e que pode levar sua vida em frente, apesar dos problemas”, sentencia a psicóloga.