Conheça a cirurgia hepática laparoscópica e seus benefícios

28 de junho de 2020

Conheça a cirurgia hepática laparoscópica e seus benefícios

A primeira hepatectomia laparoscópica realizada no mundo data de 1991. Desde então a técnica avançou muito, em conjunto com o avanço do treinamento do cirurgião de fígado e da tecnologia disponível. O cirurgião oncológico Andrea Petruzziello, do Instituto de Oncologia do Paraná – IOP, explica que realizar hoje cirurgias de fígado complexas por videolaparoscopia não só é uma realidade nas equipes especializadas em cirurgia hepática, como é a técnica de escolha em muitas situações. Apesar de desafiadora do ponto de vista técnico, a cirurgia hepática por videolaparoscopia é um dos melhores exemplos das vantagens de se realizar cirurgias complexas de forma minimamente invasiva e de beneficiar o paciente. O IOP disponibiliza este tipo de tratamento de forma rotineira.

Confira a entrevista com o cirurgião oncológico Andrea Petruzziello onde ele conta mais sobre esse tipo de cirurgia:

Como é o procedimento?
Andre Petruzziello – A cirurgia se dá sob anestesia geral, assim como para a cirurgia convencional de corte. Contudo, em vez de se realizar uma longa incisão no abdômen, toda a cirurgia é realizada por meio de pequenos cortes, de 1 cm ou menos, por onde são inseridos os instrumentos. Ao final da cirurgia, a parte do fígado retirada é inserida em um tipo de bolsa coletora, e é retirada por uma pequena incisão próximo ao púbis, parecida com o corte realizado em mulheres no parto cesáreo.

Ela é indicada, preferencialmente, para qual tipo de casos?
AP – Virtualmente, todos os tipos de tumor hepático podem ser operados por videolaparoscopia, mas é claro que existem limites técnicos. Os casos de hepatocarcinomas, que são tumores que nascem no fígado, as metástases hepáticas, originadas de tumores intestinais, e os tumores hepáticos benignos, são todos preferencialmente tratados por laparoscopia.
Os colangiocarcinomas (tumores do canal da bile), os tumores que envolvem os dois lados do fígado ou as cirurgias em que é necessário um controle muito complexo dos vasos sanguíneos com algum tipo de reconstrução, ainda são tratados por via aberta (por corte). Nestas situações, o risco da cirurgia é maior, e a laparoscopia perde seus benefícios. Não é uma falha da técnica cirúrgica em si. São apenas situações em que, por motivos técnicos, o cirurgião não consegue realizar o mesmo trabalho.
À parte essas exceções, a abordagem por laparoscopia tem muitas vantagens. Mesmo cirurgias muito grandes como as hepatectomias direitas (retirada de todo o lado direito do fígado) podem ser realizadas por via minimamente invasiva.

Como é composta a equipe para esse tipo de procedimento?
AP – São equipes de 3 ou 4 cirurgiões, a depender do porte da cirurgia, uma instrumentadora e anestesista. É muito importante que todos os membros estejam familiarizados com a técnica. É o típico exemplo de cirurgia em equipe. O cirurgião sozinho, por mais experiente que seja, não consegue realizar uma hepatectomia laparoscópica com sucesso sem um time especializado à sua volta. A participação do radiologista no planejamento da cirurgia é fundamental.

Nesse tipo de cirurgia, quais equipamentos e aparatos são usados?
AP – O avanço da cirurgia hepática laparoscópica ocorreu, em boa parte, graças ao avanço da tecnologia. É um exemplo de procedimento em que é usado praticamente todo o armamentário tecnológico à disposição do cirurgião: pinças de energia para dissecção e controle de sangramento, grampeadores, pinças especiais, monitores cardíacos, bolsas extratoras, drenos. Todo este aparato é fundamental para o sucesso do procedimento. Sem ele, a cirurgia só pode ser realizada por via aberta.

A experiência em cirurgia hepática e laparoscópica são determinantes para o sucesso da cirurgia?
AP – Como toda cirurgia de altíssima complexidade, o resultado é altamente dependente do treinamento e experiência da equipe cirúrgica. A cirurgia hepática laparoscópica entra em uma categoria mais especial ainda: além do nível de expertise exigido em uma cirurgia de fígado, o cirurgião precisa do domínio completo de técnicas avançadas de laparoscopia.

Existe algum fator de risco nesse tipo de cirurgia, como, por exemplo, o controle vascular?
AP – Sim. O maior risco em uma cirurgia hepática laparoscópica é um sangramento que exija a rápida conversão para uma cirurgia aberta para o seu controle. Nestes casos, pode ocorrer uma hemorragia significativa. É justamente para evitar situações extremas como esta que os procedimentos devem ser cuidadosamente planejados, realizados por uma equipe experiente e com o material adequado.
Respeitadas estas condições, a cirurgia de fígado por vídeo não só é muito segura, mas as mais recentes pesquisas mostram que apresenta mais segurança e menor taxa de complicações que a cirurgia aberta.

Esse tipo de cirurgia, menos invasiva, favorece uma recuperação mais rápida ao paciente?
AP – As vantagens em termos de recuperação são inúmeras e bem documentadas na literatura científica. Estas cirurgias hepáticas por laparoscopia tendem a sangrar muito menos que as abertas. O paciente raramente precisa de transfusão de sangue durante o procedimento. Por si só, isto reduz alguns riscos relacionados à transfusão. Por não precisar de nenhum corte grande no abdômen, a dor pós-operatória é muito menor, o paciente sai do leito e caminha mais rápido, a chance de complicações como pneumonia, infecção da ferida ou hérnias, diminui significativamente. Como vantagem adicional, e muito relevante, o paciente que precisa retornar para a quimioterapia após a cirurgia o faz de forma mais precoce, com documentadas vantagens em termos de chance de cura do tumor.