Fé e câncer: como a espiritualidade transforma a jornada do paciente oncológico
A espiritualidade e a fé têm papel reconhecido na qualidade de vida de pacientes oncológicos — não como substituta do tratamento médico, mas como suporte emocional, psicológico e existencial que pode fazer toda a diferença durante o processo. Estudos apontam que o apego à religiosidade influencia positivamente a saúde biopsicossocial de quem enfrenta o câncer, reduz o estresse e a ansiedade durante o tratamento e está associado à maior adesão terapêutica. Essa é também a história de Ademar Ferreira, paciente oncológico diagnosticado com carcinoma renal de células claras — o subtipo mais comum de câncer de rim, correspondente a cerca de 75% dos casos —, que compartilhou sua trajetória no podcast Aqui por Você (Temporada 2, Episódio 01), apresentado pelo jornalista Johnny Mota.
O diagnóstico: quando o inesperado aparece
O diagnóstico de Ademar não seguiu o caminho óbvio. Ele procurou atendimento médico devido a um desconforto na próstata — uma inflamação sem relação direta com o rim — e foi durante esse processo que exames de imagem revelaram um nódulo suspeito no rim esquerdo. Uma tomografia confirmou o achado e, em seguida, uma ressonância magnética identificou o tipo histológico: tumor de células claras, encapsulado.
Esse cenário é típico do carcinoma renal de células claras: a doença raramente apresenta sintomas em estágios iniciais. Quando sinais como sangue na urina ou dor no flanco surgem, o tumor frequentemente já atingiu proporções maiores. O diagnóstico precoce de Ademar foi resultado de uma combinação de exames preventivos regulares e, na sua interpretação, uma intervenção divina que usou o desconforto prostático como “sinal”.
“A impressão que eu tive é que aquele processo com a próstata foi só para eu ter o diagnóstico do câncer.” — Ademar Ferreira
O carcinoma de células claras é mais frequente em homens acima de 50 anos, com fatores de risco como tabagismo, obesidade, hipertensão e histórico familiar. Ademar menciona ter um tio com o mesmo tipo de tumor no outro rim, o que sugere um possível componente genético da doença.
A fé como âncora diante do diagnóstico
No momento de receber a notícia, Ademar não sentiu o pânico que muitos esperariam. A explicação, segundo ele, está em mais de 20 anos de caminhada espiritual. Essa vivência prévia fez com que a perspectiva da morte — algo que o diagnóstico oncológico invariavelmente evoca — não lhe roubasse a paz.
Essa postura encontra respaldo em pesquisas científicas: pacientes oncológicos com vida espiritual ativa tendem a apresentar maior esperança, positividade no decorrer da doença e menor medo de enfrentar o câncer. O enfrentamento religioso é identificado como estratégia de redução do estresse e melhoria da qualidade de vida.
Ademar cita uma frase atribuída ao ex-vice-presidente José de Alencar, ele mesmo um sobrevivente de câncer:
“Se Deus o queria morto, não precisava de câncer. E se Deus o queria vivo, não era o câncer que iria matá-lo.”
Essa lógica — entregar o controle do resultado a uma força maior — é precisamente o mecanismo psicológico que os estudos identificam como promotor de bem-estar: menor medo, mais autoconfiança e maior suporte social.
A cirurgia: fé e ciência juntas
O tratamento do carcinoma renal de células claras localizado é primariamente cirúrgico. Ademar foi submetido a uma nefrectomia parcial por videolaparoscopia, procedimento que preserva ao máximo o tecido renal saudável e exige parar a circulação no rim por um período máximo de 30 minutos para a remoção do tumor.
O procedimento aconteceu durante a pandemia de COVID-19, o que adicionou uma camada de complexidade: havia disputas por leitos de UTI e risco de exposição viral com imunidade comprometida. A cirurgia foi adiada uma vez, realizada seis meses após o diagnóstico, e — nas palavras do próprio cirurgião —
“foi uma cirurgia de livro” — médico responsável pela nefrectomia de Ademar
Ademar teve recuperação rápida, perdeu cerca de 50 ml de sangue em toda a operação e recebeu alta no dia seguinte ao procedimento. Hoje, já passados cinco anos da cirurgia, está em fase de remissão, realizando exames de imagem anuais de acompanhamento.
A família e o papel do entorno emocional
Se, para o paciente, a fé trouxe paz, para a família o processo foi diferente. A esposa de Ademar — com quem é casado há mais de 33 anos — viveu momentos de extrema angústia ao ouvir do médico os possíveis riscos: morte na mesa de cirurgia, perda do rim, sepse por extravasamento urinário. O oncologista se negou a operar sem antes conversar com toda a família — uma postura que Ademar destaca como exemplar.
Essa dimensão é crucial. O paciente oncológico, especialmente quando está espiritualmente equilibrado, pode tornar-se um instrumento de fé para seus familiares. A serenidade que Ademar transmitia não era performática — era vivida, incorporada ao longo de anos de prática espiritual.
Mudanças de hábito após o câncer: o antes e o depois
O câncer funcionou para Ademar como um divisor de águas nos hábitos de vida. Antes do diagnóstico, ele era sedentário e chegou a consumir 600 ml de refrigerante diariamente no almoço. Após a cirurgia, passou a acordar às 5h da manhã para se exercitar e está em processo contínuo de revisão alimentar — eliminando açúcares, reduzindo carboidratos e substituindo o refrigerante por água com gás.
Mais do que as mudanças em si, Ademar destaca o princípio subjacente:
“Hábito não é o que você faz de vez em quando. Hábito é o que você faz todo dia.” — Ademar Ferreira
Espiritualidade e hábitos saudáveis, nesse sentido, são complementares — não concorrentes.
“Não precisa ter câncer para você mudar a sua vida. Você pode rever seus hábitos agora.” — Ademar Ferreira
A história da mãe: fé, perdão e reconciliação
Um dos momentos mais emocionantes do episódio é a história da mãe de Ademar, diagnosticada com câncer estômago — um dos tipos mais agressivos. O relacionamento entre ambos era difícil, marcado por afastamento e mágoas acumuladas ao longo dos anos.
Dias antes da cirurgia da mãe, Ademar rezou um rosário com ela — pedindo perdão pelos momentos em que a havia magoado e oferecendo perdão pelos momentos em que ela o havia ferido. Aquele rito de reconciliação transformou a relação. A recuperação pós-operatória da mãe surpreendeu a equipe médica: internação prevista de 30 dias foi reduzida para uma semana e meia, e o tempo de UTI esperado caiu de cinco para dois dias.
A esposa de Ademar — antes vista pela sogra com distância — passou a cuidar da mãe do marido até o fim, dando-lhe banho, acolhimento e presença. O ato de perdoar, Ademar explica, não é dizer que o outro estava certo — é um ato de bondade de quem perdoa, uma libertação.
Ciência e espiritualidade: uma integração necessária
A medicina contemporânea, especialmente a oncologia, reconhece a necessidade de tratar o ser humano de forma integral: físico, emocional e espiritual. A integração de uma rede multidisciplinar que incorpora o viés espiritual torna o tratamento menos solitário e exaustivo.
“Quando você tenta dissociar a questão espiritual do ser humano, o resultado é um ser humano pior do que ele é.” — Ademar Ferreira
Ademar não prega uma religião específica — defende que cada pessoa cultive seu momento espiritual, seja por meditação, oração ou leitura, ressaltando que estudos demonstram que isso faz bem. Grandes centros oncológicos já incorporam a espiritualidade em seus protocolos de cuidado. O sorriso de uma enfermeira, o aperto de mão de um médico, o carinho de uma psicóloga são também tratamento.
Mensagem de esperança para quem está no diagnóstico
Para quem acabou de receber o diagnóstico de câncer, Ademar tem uma mensagem direta:
- O diagnóstico não é a última palavra sobre a sua vida
- Não interrompa o tratamento — siga as recomendações médicas, psicológicas e, se necessário, psiquiátricas
- Busque sua fé — independentemente da religião, aprofunde sua relação com aquilo que te sustenta espiritualmente
- Cerque-se de bons profissionais — a qualidade da equipe médica faz diferença real
- Cuide dos seus relacionamentos — não guarde ressentimentos; o perdão liberta quem perdoa
- Faça exames preventivos regulares — o diagnóstico precoce amplia significativamente as chances de cura
Perguntas frequentes sobre fé e câncer
- A espiritualidade realmente ajuda no tratamento do câncer?
- Sim. Estudos científicos demonstram que a espiritualidade melhora a qualidade de vida, reduz estresse e ansiedade, aumenta a adesão ao tratamento e está associada a melhores prognósticos em pacientes oncológicos.
- O câncer renal de células claras tem cura?
- Quando diagnosticado precocemente, o carcinoma renal de células claras pode ser tratado cirurgicamente com alta taxa de sucesso. O acompanhamento por exames de imagem é necessário por pelo menos cinco anos para confirmar a remissão.
- Como a fé ajuda a lidar com o diagnóstico de câncer?
- A fé proporciona uma estrutura existencial capaz de dar novo significado ao sofrimento, diminuir o temor da morte, gerar tranquilidade e reforçar a rede de apoio social. Tais elementos são cruciais para o bem-estar do paciente durante o tratamento oncológico.
- O que mudar na alimentação e nos hábitos após um diagnóstico de câncer?
- Especialistas e pacientes recomendam eliminar o sedentarismo (começando por caminhadas), reduzir açúcar e ultra processados, estabelecer rotinas de sono saudável e incluir momentos de espiritualidade ou meditação no cotidiano.
- Espiritualidade substitui o tratamento médico do câncer?
- Não. A espiritualidade é complementar ao tratamento médico — nunca um substituto. A recomendação é seguir rigorosamente as orientações da equipe de saúde e, paralelamente, cultivar a dimensão espiritual como suporte.



